Amados irmãos e irmãs, neste mês de novembro celebramos o dia de Finados, que na liturgia da Igreja é chamado de “Comemoração dos fiéis defuntos!”. “É diante da morte que o enigma da condição humana atinge seu ponto mais alto". Em certo sentido, a morte corporal é natural; mas para a fé ela é na realidade "salário do pecado" (Rm 6, 23). E para os que morrem na graça de Cristo, é uma participação na morte do Senhor, a fim de poder participar também de sua ressurreição.
A morte é dolorosa como um fim de festa. Nossa dor seria diferente se compreendêssemos que fim não precisa significar negatividade, mas positividade. Para o homem a morte é um fim plenitude e um fim meta alcançada.
Na morte, Deus chama o homem a si. É por isso que o cristão pode sentir, em relação à morte, um desejo semelhante ao de São Paulo: "O meu desejo é partir e ir estar com Cristo" (Fl 1,23); e pode transformar sua própria morte em um ato de obediência e de amor ao Pai, a exemplo de Cristo: Meu desejo terrestre foi crucificado; (...) há em mim uma água viva que murmura e que diz dentro de mim: "Vem para o Pai". “Quero ver a Deus, e para vê-lo é preciso morrer. Eu não morro, entro na vida”. (Santa Teresinha).
A visão cristã da morte é expressa de forma privilegiada na liturgia da Igreja: Senhor, para os que crêem em vós, a vida não é tirada, mas transformada. E, desfeito nosso corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível. A morte é o fim da peregrinação terrestre do homem, do tempo de graça e de misericórdia que Deus lhe oferece para realizar sua vida terrestre segundo o projeto divino e para decidir seu destino último. Quando tiver terminado "o único curso de nossa vida terrestre”, não voltaremos mais a outras vidas terrestres. "Os homens devem morrer uma só vez" (Hb 9,27). Não existe "reencarnação" depois da morte. A Igreja nos encoraja à preparação da hora de nossa morte ("Livra-nos, Senhor, de uma morte súbita e imprevista": antiga ladainha de todos os santos, a pedir à Mãe de Deus que interceda por nós "na hora de nossa morte" (oração da "Ave-Maria") e a entregar-nos a São José, padroeiro da boa morte.
A morte sendo o fim normal da vida recorda-nos que temos um tempo limitado para realizar a nossa vida. Graças a Cristo a morte cristã tem um sentido positivo. "Para mim, a vida é Cristo, e morrer é lucro" (Fl 1,21). "Fiel é esta palavra: se com ele morremos, com ele viveremos" (2Tm 2,11). A novidade essencial da morte cristã está nisto: pelo batismo o cristão já está sacramentalmente "morto com Cristo", para viver de uma vida nova; e se morrermos na graça de cristo, a morte física consuma este "morrer com cristo" e completa assim a nossa incorporação a ele no seu ato redentor.
Na pessoa de Jesus ressuscitado Deus se revela aquele que ressuscita os mortos. Da mesma forma como ressuscitou Jesus, Deus nos ressuscitará também. Toda a argumentação de São Paulo se baseia nessa fé (cf. 1Cor 6,14; 1Cor 15,12-18.20-22). Na hora da morte, a pessoa humana é aquela pessoa que se tornou tal pelo decorrer da própria vida. No momento da morte, o ser humano conhece pela primeira vez todas as dimensões e influências de sua própria vida. A pessoa se encontra com Deus e julga sua própria vida vivida, a partir dos parâmetros do agir de Deus que são o amor e o perdão. A morte não significa uma igualação global de todos os seres humanos. As pessoas na morte serão o que fizeram de si mesmas durante a própria vida.
Depois da morte, cada ser humano precisa de um processo de evolução para reunir e completar os fragmentos de sua própria vida. A doutrina católica propõe um passo à frente, um processo evolutivo qualitativamente chamado "Purgatório".
O Purgatório é o estado de purificação pelo qual passam os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas que não estão completamente purificados, embora tenham garantida a sua salvação eterna. A Igreja formulou a doutrina da fé relativa ao Purgatório, sobretudo no Concílio de Florença e de Trento. Fazendo referência a certos textos da Escritura (1Cor 3, 15: 1Pd 1, 7), a tradição da Igreja fala de um fogo purificador.
O Céu é o estado de perfeita união e comunhão com Deus. É a comunidade bem-aventurada de todos os que estão perfeitamente incorporados a Jesus. Este mistério de comunhão dos bem-aventurados com Deus e com os que estão em Cristo supera toda a compreensão e imaginação (1Cor 2, 9). A Escritura fala-nos dele em imagens: vida, luz, festa de casamento, vinho do Reino, casa do Pai, Jerusalém Celeste, Paraíso, etc.
O Inferno é o estado de auto-exclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados. A pena principal do Inferno consiste na separação eterna de Deus, o Único em quem o homem pode ter a vida e a felicidade para as quais foi criado e às quais aspira. Para ir para ao Inferno é preciso uma aversão voluntária a Deus e persistir nela até o fim da vida.
"Caro salutis est cardo" ("A carne é o eixo da salvação"). Cremos em Deus que é o criador da carne; cremos no Verbo feito carne para redimir a carne; cremos na ressurreição da carne, consumação da criação e da redenção da carne. Façamos todo o esforço possível, para vivermos bem com Cristo, assim morreremos bem com Ele e herdaremos o seu Reino sendo lá, felizes para sempre! Deus vos abençoe!
Pe. Anderson Daniel Lopes