Amar até doer (Stº Agostinho)
Quando ouvi essa frase pela primeira vez, achei meio estranha, parecia contraditória, mas hoje depois de algum tempo de vida, e de muitas experiências e convivências, percebo que de fato Santo Agostinho tinha razão, todo amor traz em si alguma dor.
O próprio Cristo pôde viver isso, amou até doer, até doer sua carne, seus ossos, seu espírito, ao ponto de suplicar ao Pai que se possível afastasse Dele aquele cálice, mas não foi possível; não foi porque o sofrimento é uma condição para o amor.
O amor é dar de si, é entregar-se, e para ser verdadeiro precisa ser gratuito, mas o fato é que quase sempre esperamos algo em troca, isso gera angústia, talvez porque em todo amor aja qualquer coisa de egoísmo, de individualismo, queremos algo, que nos faça bem. Não que o amor seja mal, mas ele causa dor, porque muitas vezes nossa medida é pautada por nossas carências que quase sempre são frutos de uma ausência ou de um vazio que nem imaginamos de onde vem.
Portanto, por mais que amemos não conseguiremos entender a verdadeira dimensão do amor, penso que isso só será possível quando não mais estivermos aqui, só junto de Deus entenderemos a verdadeira dimensão do amor, foi por isso que Jesus morreu, por saber que só na morte é que se vivencia a verdadeira essência do amor, que nada mais é do que fazer nascer a vida, mas não há nascimento sem morte.
Quando ouvi pela primeira vez que São Francisco chamava a morte de irmã fiquei intrigado, porque nunca a tinha visto assim, mas hoje, depois de tudo o que vivi, e olha que perto do que ainda tenho que viver, penso que não é muito, entendo o que ele quis dizer, a morte é nossa irmã, porque quando sentimos dor conseguimos ter a noção exata do amor que sentimos, coisa que é impossível quando estamos felizes, não que eu queira exaltar agora a morte, mas quero apenas dizer que ela arranca de nós todo o amor que nem imaginávamos existir dentro de nós.
Pois é, tanto amor que seríamos até capazes de morrer, morrer no lugar de nossos filhos, nossos pais, nossos entes queridos, só para não vê-los partirem primeiro que nós, porque “perder”, significa ter que lidar com um amor que não conhecemos direito, tão grande que só é descoberto na hora da dor! A dor faz aflorar o maior amor, ou o amor maior! Tão grande que nos faz entender o que significa amar até doer!
Significa que a dor é a certeza de um amor total, irrepreensível e verdadeiro, só sofremos por aquilo que amamos, portanto, às vezes é preciso sentir dor para descobrirmos o que realmente tem valor a nós; as pessoas, as obras, os sorrisos, a presença, a palavra, ou simplesmente o olhar. Por isso suplico todos os dias a Deus que jamais deixe de olhar para mim, e que me ajude a sofrer; que nunca me deixe cansar de amar, amar até dar a vida, toda a vida, ainda que eu não seja compreendido, que muitas vezes seja trocado, deixado de lado, ou simplesmente esquecido, que eu entenda que “ninguém tira a minha vida”, como nos diz Jesus, nós mesmos devemos dá-la, oferecê-la, por isso ofereço aos que amo a minha vida! Peço apenas uma coisa, não me dêem nada, mesmo que o meu ego suplique, me dêem apenas a oportunidade de amar até doer e se preciso for também morrer!
Com o coração,
Pe. Anderson Daniel Lopes
“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos!” (Jo 15,13)

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