26 DE MARÇO DE 2011, SÁBADO, 19:30 H, COMUNIDADE SANTA CRUZ, HOMILIA DO PADRE ANDERSON DANIEL
1ª Leitura: Êxodo 17,3-7
Salmo: 94/95
2ª Leitura: Romanos 5,1-2.5-8
Evangelho: João 4,5-42
Irmãos, irmãs, quem aqui não tem sede? Quem aqui não espera alguma coisa? Quem aqui não busca alguma coisa? Quem aqui não sonha com alguma coisa? Essa sede que levou a samaritana a enfrentar o sol do meio dia é uma sede que se faz presente no coração de cada um de nós. Nós temos sede de água, temos sede do alimento, fome, mas também temos sede de uma vida nova; temos sedes espirituais que muitas vezes não conseguimos saciar, temos sede da transformação do coração.
Vejam que esse encontro marca para sempre a vida daquela mulher. Jesus pára no poço de Jacó, senta-se enquanto aguarda os discípulos que iam buscar alimento, e eis que chega essa mulher; e essa mulher não vai ao poço ao meio dia por acaso – porque ninguém ia ao poço meio dia, porque era muito quente – ela foi ao poço ao meio dia porque era uma mulher excluída, não podia se misturar com os demais porque era uma pecadora. E Jesus senta-se no poço para esperar a samaritana, e eis que quando ela chega, ele diz “dá-me de beber”.
Irmãos, Jesus pede daquilo que só Ele pode dar. Interessante... Vejam que essa catequese batismal é também pedagógica, muitas vezes Jesus precisa nos fazer enxergar que nós não temos nada para oferecer, e que entra ano e sai ano, nossa vida não muda e, muitas vezes é pobre de sentido, de valor.
Se Jesus chegasse hoje e pedisse a você “dá-me de beber”, o que talvez você tivesse para oferecer a Jesus? Muitas vezes nós não estamos saciados e corremos o risco de passar a vida inteira sem nunca ter os nossos desejos saciados, porque muitas vezes eles se reduzem a coisas materiais e riqueza atrai riqueza, quanto mais a gente tem, mais a gente quer ter, e nunca estamos satisfeitos. Pergunte para algum milionário se ele quer deixar de ganhar dinheiro – ele sempre quer mais, mesmo já sendo milionário, nunca está bom.
E nós, também trazemos dentro de nós essa sede que não saciamos porque muitas vezes não fazemos o que gostamos, não vivemos como queríamos, não conhecemos o verdadeiro sentido da vida. Jesus pede a única coisa que a samaritana não podia dar, mas Ele já tinha. Mas primeiro Jesus precisa fazer um trabalho pedagógico conosco de tirar de nós aquilo que é ruim. Jesus precisa nos fazer conhecer quem somos e o que temos.
Você se conhece? Você sabe quem é? Você sabe o que tem? Você sabe até onde pode ir? Você sabe até onde pode chegar? Você sabe o que precisa fazer para melhorar a sua vida? Você sabe quais são seus maiores defeitos? Vocês sabem quais são seus maiores pecados?
Vejam que Jesus com tanto carinho e pedagogicamente vai tirar daquela samaritana as piores coisas que ela tinha, mas de uma forma não agressiva querendo condená-la, mas fazendo-a se conhecer.
“Dá-me de beber”; “mas como é que tu sendo judeu pede de beber a mim que sou uma samaritana”. Judeus e samaritanos não podiam nem se encontrar, era como gato e cachorro; parece uns e outros aí que vive em casa, que um entra pela porta da sala o outro sai pela porta da cozinha, moram na mesma casa mas se encontrarem, sai uma morte.
“E como é que eu vou te dar de beber se nem balde tem”, “mas a água que eu vou te dar é uma água que vai te saciar e você não vai mais precisar vir aqui”. Ela não queria mais ir lá ao meio dia, era muito sofrimento. Irmãos será que nós temos conhecimento do nosso sofrimento? A primeira palavra que hoje eu quero deixar para vocês nessa homilia é justamente conhecer. É preciso conhecer. Conhecer a você mesmo, conhecer o seu interior, conhecer suas fragilidades, conhecer suas dificuldades, conhecer seus dons, conhecer a pessoa que você escolheu para ficar com você a vida inteira - espero que conheça muito bem -, conhecer a sua fé, conhecer a sua vida, conhecer as suas fraquezas, conhecer os seus limites. Primeira coisa que Jesus fez foi fazer aquela mulher se conhecer.
Vocês viram como Jesus é sutil? “Vai chamar o teu marido e volta aqui”. O que ela disse? “Eu não tenho marido” – olha Jesus fazendo ela se conhecer. Claro que ela não tem marido, porque ela teve cinco e o que ela tem agora não era dela, quer dizer, tinha roubado da outra. Por isso que ela estava indo buscar água ao meio dia, era pecadora, desprezada.
Vocês que são casadas, não é fácil cuidar de um marido, imagina cuidar de cinco, ou melhor, de seis; mas não porque talvez o problema fosse os maridos, mas porque o problema era ela. É como quando o caboclo que dá problema no trabalho, você tira ele daqui, poe ele ali. Na pastoral, na paróquia, o caboclo só dá problema, e aí o padre tira ele dessa pastoral e poe na outra, ele dá problema; poe naquela ali, dá problema; poe naquela outra, dá problema, e aí ele fala assim: “eu não consigo, não entendo esse povo aí, ninguém trabalha direito comigo”. O problema é o povo, nunca é ele. E o que Jesus fez foi mostrar para ela que o sofrimento estava nela. Quer dizer, é preciso se conhecer.
Hoje tem gente que não se conhece, estuda aquilo que não gosta, faz o que não gosta porque acha que vai ganhar mais dinheiro, porque acha que essa profissão – não tem vocação nenhuma para ser tal coisa – mas vai fazer aquilo porque acha que aquilo dá muito dinheiro. Depois vive angustiado, sofre. Não se conhece.
E eu quero que vocês saiam daqui hoje com essa certeza: nós precisamos nos conhecer. Conhecer para querer. Olha que bonito: Jesus fez aquela samaritana pedagogicamente reconhecer todos os seus pecados, suas fraquezas, para que depois ela pudesse dizer: “vejo que és um profeta, sendo profeta o que você tem a me oferecer”, Jesus tem uma água viva e um alimento, que é fazer a vontade do pai, e ela vai dizer “dá-me então dessa água, dá-me desse alimento, eu quero”.
Quantas coisas na nossa vida passam por essa palavrinha “eu quero”. Às vezes falta esse “eu quero” para nós. Fulano quer casar com sicrana? Eu quero! Fulana quer casar com sicrano? Ah, padre, se eu pudesse voltar atrás... Queres consagrar a sua vida? Quero! É o que o padre diz na ordenação. E eu digo para vocês: querem ser mais santos? Querem mudar de vida?
Jesus não vai fazer nada se a gente não quiser. “Dá-me dessa água, Senhor, para eu não precisar mais vir a esse poço”. A partir daquele momento em que a samaritana desejou uma vida nova ela se tornou uma discípula. Eu sei quem eu sou e sei que os pecados que eu tenho não me impedem de querer ser melhor. Eu quero! Quais têm sido seus desejos hoje? O que vocês têm desejado, querido? Eu quero!
Duas palavrinhas: conhecer e querer. Essas duas palavras mudaram a vida da samaritana. Primeiro uma mulher que não tinha consciência ou sabia quem ela era, mas nunca tinha aceitado, depois aceitou, se conheceu. Jesus fez esse trabalho com ela, aí ela quis ser diferente. Eu quero! Tanto é que ela não era uma mulher tão ruim porque assim que ela descobriu o Messias, o que ela fez? Foi até a cidade para contar para os demais. Quer dizer que ela não era egoísta, mesmo sendo marginalizada, ela foi aos demais, ela foi partilhar.
Irmãos não existe vida nova sem algumas atitudes concretas. Não dá para viver a água da vida sem algumas atitudes concretas. Não dá para ser melhor sem conhecer as suas fraquezas. E quaresma é tempo de conhecer as fraquezas, tem que ter coragem de dizer que eu sou essa porcaria aqui às vezes, que não dá, que não consigo, que não dou conta, que não faço, que tenho limites que não sou melhor que ninguém que sou fraco, para depois querer ser melhor – dá-me dessa água.
Vocês querem essa vida nova? Porque não adianta dizer que “eu queria mudar de vida”, mas não se comprometer. Eu quero! E aprender a partilhar daquilo que Ele nos dá.
Então, concluindo hoje essa reflexão que é muito mais profunda, teria um milhão de coisas para falar. Esse Evangelho é um dos maiores Evangelhos do ano A e de todos os Evangelhos, de uma profundidade enorme. Hoje, se nós tivéssemos catecúmenos adultos para serem batizados, começaríamos os escrutínios porque essa é uma catequese batismal; a água está presente na vida nova, representa o Espírito Santo. Vejam lá na primeira leitura, a água que brotou do rochedo para matar a sede daquele povo de Israel, ingrato, que chegou para Moisés e pediu “nós não temos água”, nós vamos morrer de sede”. Deus disse para Moisés: “vai lá pega o teu cajado e fere a rocha e dá de beber, porque essa é a água da vida. Quando Jesus morreu na cruz, do seu coração jorraram sangue e água.
Essa água que está faltando no nosso coração é água que está presente no poço, mas é a água que é Jesus; a água na Bíblia, no Novo Testamento representa o Espírito Santo que deu a nós vida nova. Mas para isso é preciso que eu me conheça, que eu queira e que eu saiba partilhar o que eu tenho. Ser missionário é ser assim: se conhecer, saber dos seus limites, querer uma vida nova e partilhar daquilo que se tem. Se um dia vocês ouvirem: “dá-me de beber”, o que terão a oferecer? O que há na sua vida que pode ser partilhado? O que há na sua vida que pode ser dividido.
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